Texto CG1A1
O transporte responde por 53,3% das emissões do setor de
energia no Brasil, segundo dados do Sistema de Estimativa de
Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) de
2023. O transporte rodoviário por carros, caminhões e ônibus é
responsável por mais de 90% dessas emissões de carbono.
Quando o assunto é transição energética justa no setor de
transportes, é fundamental começar pela principal forma de
deslocamento da população brasileira: os sistemas de transporte
coletivo por ônibus. No centro da discussão, está a eletrificação
da frota de ônibus, uma das estratégias mais eficazes para reduzir
emissões de gases de efeito estufa e melhorar a qualidade do ar
nas cidades.
De acordo com um estudo desenvolvido no Brasil, os
ônibus movidos a diesel produzem, em média, 3 a 4 vezes mais
emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo de vida do
que os ônibus elétricos, incluída a produção das baterias.
Nesse contexto, as cidades brasileiras já apresentaram
avanços importantes na transformação de seus sistemas de
transporte, ainda que sigam atrás dos esforços de outros países.
Na China, por exemplo, ônibus elétricos correspondem a 98%
das vendas, enquanto na Europa são a tecnologia mais vendida
desde 2024. A América Latina, por sua vez, conta atualmente
com mais de 7.000 ônibus elétricos, segundo dados da E-bus
Radar, plataforma que monitora frotas de ônibus elétricos e
divulga dados para ajudar governos a atingirem suas metas
climáticas. Desse total, 1.143 estão no Brasil, e a cidade de São
Paulo concentra a maior parte, com 841 veículos.
O desenvolvimento de políticas públicas com metas
nacionais de eletrificação e mobilização de investimentos do
setor privado é central para impulsionar a eletrificação das frotas
de ônibus, garantindo não somente benefícios ambientais, mas
também de saúde e qualidade de vida para toda a população.
No âmbito federal, cabe ao governo estruturar
mecanismos de financiamento estáveis, com linhas de crédito
contínuas e garantias que ofereçam previsibilidade e segurança
aos investimentos, especialmente para municípios com
orçamentos menores. Já os governos locais devem avançar na
modernização dos marcos regulatórios do transporte público por
meio de processos de licitação, contratos e modelos de
remuneração que incentivem a qualidade na prestação dos
serviços.
Segundo um estudo lançado recentemente, o Brasil tem
potencial para substituir, nos próximos cinco anos, mais de
14 mil ônibus a diesel por modelos elétricos nas 21 maiores
regiões metropolitanas, priorizando a troca dos veículos mais
antigos e poluentes. Essa transição reduziria em 24,6% as
emissões do transporte coletivo nessas cidades e poderia gerar
uma economia de até R$ 62 milhões por ano em custos de saúde
pública.
Apesar desses avanços, o Brasil ainda precisa percorrer
um caminho longo para que seu setor de transportes esteja
alinhado à meta de neutralidade climática até 2050.
A eletrificação das frotas de ônibus tem papel essencial para uma
transição energética inclusiva que considere os impactos ao meio
ambiente, à economia e às pessoas, mas cabe lembrar: ela é
apenas a primeira etapa de um esforço mais amplo.
Ao priorizar a eletrificação dos ônibus, o país pode não só
reduzir emissões e melhorar a qualidade de vida urbana, mas
também sinalizar ao mundo que é capaz de liderar pelo exemplo.
Clarisse Cunha Linke e Marcel Martin. Brasil precisa priorizar o transporte público para cumprir suas metas climáticas. In: Folha de S. Paulo, 26/10/2025 (com adaptações).