ATENÇÃO: o texto a seguir refere-se à questão.
Mário recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a
cabeça baixa. Camila, ainda na poltrona, com as costas para a
janela, os cotovelos fincados nos joelhos e o queixo nas mãos,
procurava uma palavra com que pudesse convencer o filho da sua
inocência. Tudo lhe parecia preferível àquela humilhação. Daria a
luz dos seus olhos, - ah, antes ela fosse cega! para que Mário a
julgasse pura, muito digna de todo o respeito das filhas, muito
honesta, toda de seu marido e das suas crianças. Compreendia
bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só servem
para a dor. Colhem rosas as insensíveis, que vivem eternamente
na doce paz; para as outras há pedras, duras como aquelas
palavras do seu filho adorado. Antes ela fora surda: não as teria
ouvido!
Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres,
amado outros corpos... e aí estava como dele só se dizia bem! Ele
amara outras pela volúpia, pelo pecado, pelo crime; ela só se
desviara para um homem, depois de lutas redentoras; e porque
fora arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a
sua ventura, aí estava boca do filho a dizer-lhe amarguras...
(ALMEIDA, Julia Lopes de. A Falência. São Paulo: Via Leitura, 2018.)