Para responder à questão, leia o texto abaixo.
Podes já não lembrar, mãe, mas eu lembro
Foi ela que me deu para ler A nova mulher, de Marina Colassanti. Também me estimulou a ler O complexo de
Portnoy, meu primeiro Philip Roth, e Servidão Humana, de
Somerset Maugham. Aliás, encontrei na estante da sala outro
título deste autor, com a caligrafia dela na primeira folha,
assinalando a propriedade da relíquia: Um gosto e seis
vinténs, edição de 1941, que narra a trajetória de um corretor
da bolsa que abandona a família e a profissão para se dedicar
exclusivamente à pintura no Taiti - baseado na vida de Paul
Gauguin. Realidade inspirando ficção. A propósito, foi ela
também, minha mãe, que me indicou Truman Capote.
Eu tinha uns 17 anos e sonhava em morar sozinha, ao
contrário da garotada de hoje, mas reconhecia a sorte de ter
uma biblioteca familiar à disposição. Virei uma leitora
compulsiva e, anos depois, quando saí de casa, eu é que
comecei a emprestar a ela minhas descobertas editorais.
Nunca mais paramos de trocar livros, até meses atrás,
quando ela admitiu, aos 88 anos, que estava tendo
dificuldade de ler. Reagi. Entreguei a ela os livros da coleção
Letras Grandes, da L&PM. Coloquei em suas mãos histórias
em quadrinhos que contavam a vida de Van Gogh e de David
Bowie. Estiquei a vida útil de seus olhos, até que, há poucos
dias, elajogou a toalha e declarou que não dava mais. Já não
conseguia acompanhar as histórias. Nem mesmo a sua
própria.
Esta semana, percebi o quanto ela estava desanimada
diante das limitações da velhice - com a perda da memória,
em especial. Mirava fixamente sua estante de livros, absorta
em sei lá que pensamentos. Até que, do nada, fez a pergunta fatal, sem tirar os olhos da estante: "de que adiantou eu ter
lido tanto?"
Mãe, a leitura te fez uma das mulheres mais humanas
com quê tenho o privilégio de conviver. Te deu um senso de
humor que foi desperdiçado: tu terias brilhado como
comentarista de programas de televisão como eu ria com
tuas análises. A leitura te deu significância. Dignidade. Te fez
diferenciar o profundo do superficial. Foi a literatura que te
levou a cursar a faculdade de Letras aos 46 anos de idade.
Tornou a tua conversa interessante. Fez com que não te
sentisses sozinha aos 12 anos, quando mudaste de cidade
sem ter uma amiga sequer. Os livros te tornaram uma
apreciadora refinada do cinema. Tua conexão com gente de
todas as idades: foi por causa deles, dos livros. Nunca conheci
uma única pessoa que não te admirasse.
Ler tanto, ler muito, adiantou não só a tua vida, mas
também a minha. Quando fiz 13 anos, ganhei de ti e do pai
uma máquina de escrever. E, a partir de então, me tornei eu
mesma uma máquina de escrever. Podes já não lembrar mãe, mas eu lembro.
Autora: Martha Medeiros GZH (adaptado).