TEXTO PARA A QUESTÃO.
Não dispenso uma reserva de ilusão e ternura para atravessar
os dias
Estou na sétima e última temporada de Younger, série que
se propõe a debater o etarismo: uma mulher de 40 anos não
consegue emprego e resolve mentir que tem 26, a fim de integrar
a equipe de uma casa editorial de Nova York. Dá certo. A partir daí
começa a história, os rolos e as mentiras que se sucedem. Ter 40
me parece pouca idade para configurar um problema. A editora
onde ela trabalha só publica autores bizarros. E as reviravoltas
amorosas são meio pueris. No entanto, me mantenho em frente à
tevê e sigo rumo ao desfecho: são meus minutos de férias da
truculência lá fora.
É o que nos faz, da mesma forma, assistir a Emily in Paris sem
ligar a mínima para a ausência de verossimilhança com a vida real.
Aliás, seu sucesso se deve justamente a isso. Cenários de cartão postal, elenco de beldades, doses excessivas de festas, viagens,
moda e romance. Irã? Venezuela? Nem vem.
Essa alienação autoconcedida poderia ser um gatilho para a
culpa, mas o passado nos absolve. Foram anos de Fassbinder, Alain
Resnais, Godard, Truffaut, Bergman, Costa Gavras, Ettore Scola,
para citar apenas o cinema europeu. Uma vida inteira de Eduardo
Galeano, Garcia Marquez, Vargas Llosa, Borges, Mario Benedetti,
Isabel Allende, Ernesto Sábato, Octavio Paz, para citar apenas a
literatura latino-americana.
E uma abundância de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico
Buarque, Rita Lee, Raul Seixas, Bethânia, Gal Costa, Gonzaguinha,
Edu Lobo, João Bosco, para citar apenas a música popular
brasileira. Podemos relaxar, portanto. Não será uma minissérie
levezinha ou um filme água com açúcar que irá comprometer todo
o sólido patrimônio intelectual que construímos até aqui. Temos
repertório. Substância. Discernimento. Que venham, pois, as
sessões da tarde.
Como você, também prefiro uma comédia ou drama com
tutano, a fim de me sentir recompensada pelo tempo investido.
Mas não dispenso uma reserva de ilusão e ternura para atravessar
os dias. Nenhum problema em contrabalançar a aridez do mundo
com a esperança de que o casal da trama fique junto no final. No
nosso cotidiano, não entabulamos diálogos engraçadinhos, não
temos um estoque de frases espirituosas, então, ao menos na
ficção, que sejam fartas as tiradas ensaiadas.
Faz parte da saúde mental abandonar o realismo, vez que
outra, em troca das boas risadas que os estereótipos entregam –
sem prejuízo aos nossos neurônios. Na dúvida, foi aberta a
temporada de lançamentos, e O Agente Secreto, Hamnet, Valor
Sentimental, Uma Batalha Após a Outra e Foi Apenas um Acidente,
para citar os queridinhos do momento, estão em cartaz em
alguma sala perto de você. Cérebro em primeiro lugar. Mas, se
doer, que a gente recorra a alguma anestesia, sem remorso.
Autora: Martha Medeiros - GZH (adaptado).
Na Língua Portuguesa, os numerais podem ser
classificados, entre outros tipos, como cardinais e ordinais,
conforme a ideia que expressam no enunciado. Considerando
o trecho “Estou na sétima e última temporada de Younger (…)
uma mulher de 40 anos não consegue emprego”, assinale a
alternativa correta quanto à classificação dos numerais
destacados.