TEXTO PARA A QUESTÃO.
A vida não é uma linha reta
A maioria de nós tem medo de se desestruturar. Estamos
sempre fazendo força para manter a imagem que construímos
sobre nós mesmos. Mas em algum momento, acontece. Às
vezes é a vida que nos derruba, noutras a morte. Às vezes é um
relacionamento, noutras o fim dele. Às vezes até algo muito
bom nos quebra. O fato é que, não sei bem porque e, nem
como isso ocorre, mas temos uma fantasia de que a vida se
desenvolve, ou pelo menos deveria, de modo linear. Como se
partíssemos de um ponto X e devêssemos alcançar Y, como se
viver fosse percorrer uma linha reta com início, meio e fim. E,
de preferência, o fim precisa ser o lugar de descanso e
recompensa. A vida não é uma linha reta. Talvez a culpa seja de
Descartes. Talvez porque pensar assim nos ajuda a controlar o
medo que temos de descobrir que não temos controle sobre
isso.
Às vezes alguns encontros nos desestruturam. E temos
uma tendência a achar que a ideia de desestruturar-se
assemelhasse a uma catástrofe. Como se, de repente, todo
aquele andaime capenga que fazemos de nós mesmos para
viver e conviver em sociedade, ruísse. Quebrasse. Ficamos
quebrados, vulneráveis e visíveis para nós mesmos e para o
outro. Mas olhar para este momento, deste único ponto de
vista, me parece um jeito pequeno de ver a coisa toda. Até
porque toda estrutura é uma espécie de prisão. Desestruturar-se é também liberdade.
De quando em quando precisamos quebrar.
Desestruturar-se é dar-se conta de que aquela estrutura que
vínhamos mantendo tornou-se insuportável. E, mesmo que
não entendamos o porquê. Mas aí, vivemos num contexto
familiar e social que tenta a todo custo fazer com que a gente
volte para a estrutura de antes. Voltar para o rumo. Voltar a ter
prumo. A gente mesmo tenta isso, voltar para a forma antiga,
que já não serve mais, feito uma roupa que ficou pequena. Nos
automedicamos, rezamos, juramos que tudo vai ser como
antes, e, fazemos inúmeras tentativas de nos reencaixar
naquilo que não cabemos mais.
Desestruturar-se é o desafio da mudança. Do jeito que
estava não dá mais. É claro que é amedrontador, afinal, não há
garantia alguma. Mas é compreender que não existe um único
modo de viver. A gente se descobre diferente, mais solto de
amarras, menos preso em padrões. Descobrir quem se é, é
muito assustador, porque estamos tão acostumados a ser
como os outros querem que sejamos, que quando
conseguimos ser quem somos, nem nós mesmos nos
reconhecemos. Descobrimos que somos outro, outra. E isso
desestrutura o sistema todo.
Autora: Adriana Antunes - GZH (adaptado).
No trecho “A maioria de nós tem medo de se
desestruturar”, o vocábulo “maioria” classifica-se, do ponto de
vista gramatical, como: