IA e meio ambiente em Elias Canetti
Jose? Roberto Castilho Piqueira
Quando chega o recesso de meio de ano das
atividades dida?ticas, sou atrai?do para leituras que,
preferencialmente, afastem-se do pensar profissional
dia?rio que aguc?am meu gosto pela tentativa de
posicionar a engenharia na vida do planeta, na?o como
mera realizadora de obras, mas como agente
colaborador na sua preservac?a?o. Fico folheando os
jornais e olhando estantes de livrarias, ha?bitos
considerados antiquados, em busca de possi?veis
leituras agrada?veis. Sigo conselhos de amigos, desde
que na?o indiquem livros de autoajuda, e gosto de ouvilos comentando e debatendo as ideias.
Nessa lida, encontrei “A conscie?ncia das palavras”,
colec?a?o de escritos de Elias Canetti (1905-1994),
romancista e ensai?sta bu?lgaro-brita?nico, Pre?mio Nobel
de Literatura em 1981. Fui atrai?do pelo ti?tulo, pois uma
de minhas preocupac?o?es e? sobre a influe?ncia da
intelige?ncia artificial (IA) na produc?a?o intelectual
contempora?nea. Na?o tenho du?vidas sobre a boa ajuda
que esses me?todos podem dar na produc?a?o de textos,
aulas e planos de trabalho. Entretanto, acredito nisso
como atividade auxiliar e colaborativa, uma vez que as
palavras e ideias que prove?m da atividade consciente
carregam criatividade e sensibilidade, atributos
aparentemente subjetivos, talvez na?o atingi?veis in
silico.
A obra, datada de 1974, traz no prea?mbulo a ideia da
interpenetrac?a?o entre o pu?blico e o privado, com
algumas conseque?ncias sociais preocupantes. Hoje,
50 anos depois, vivenciamos a proliferac?a?o de redes
sociais, dotadas de algoritmos, com grande risco a?
integridade e a? privacidade dos indivi?duos. Os
benefi?cios do grande desenvolvimento tecnolo?gico e
computacional sa?o inega?veis. O lado ruim, como
adverte Canetti, e? a conquista ra?pida desses meios por
inimigos do planeta com propagac?a?o de boatos e de
ideias delete?rias de grande alcance.
Ao longo do livro, Canetti apresenta uma seque?ncia
de ensaios sobre importantes figuras da histo?ria, entre
elas Kafka, Confu?cio, Tolsto?i e Bu?chner, comec?ando
pelo escritor austri?aco Hermann Broch (1886-1951),
considerado um dos principais modernistas de todos
os tempos. Canetti identifica em Broch o que denomina
memo?ria respirato?ria, enaltecendo que a vida dia?ria e?
feita de uma mistura de respirac?o?es em um ar que e?
nosso u?ltimo bem comum, que cabe a todos
indistintamente. Essa reflexa?o parece fundamental
para a sociedade, convidando-a a uma importante
discussa?o sobre os problemas ambientais que nos
cercam. Ate? o momento, na?o havia me dado conta do
fato de que quem polui invade e prejudica um bem
pu?blico, isto e?, aquilo que pertence a todos.
Em capi?tulo seguinte, o dramaturgo Karl Kraus
(1874-1936), considerado satirista e panfleta?rio, e?
evocado. Fundador e u?nico redator da revista Die
Fackel (A Tocha), Kraus era cri?tico ferrenho da moral
burguesa da e?poca. Canetti descreve uma palestra de
Kraus realizada em Viena, em 1924, ressaltando o
espi?rito arrebatador do orador, levando a audie?ncia ao
e?xtase por meio de uma impiedosa perseguic?a?o aos
desafetos expressa nos discursos. Considerado como
o mago furioso, ao combinar literalidade e indignac?a?o,
Kraus criava importante sinergia entre suas emoc?o?es
e as da plateia. Fico imaginando como os algoritmos e
redes sociais de hoje criaram e multiplicaram esse
estilo de orato?ria, para o bem e para o mal.
Passando por uma ana?lise bastante aguda e
interessante da obra de Franz Kafka (1883-1924),
chego ao capi?tulo sobre Confu?cio (552 a.C.-489 a.C.)
e aprendo que hesitac?a?o e reflexa?o precedem e
acompanham boas respostas a questo?es relevantes,
divergindo da busca por rapidez e de terceirizac?a?o de
racioci?nio para as ma?quinas. Para Confu?cio, a
felicidade sem fim esta? na busca pelo conhecimento,
na?o admitindo o ser humano como ferramenta,
ressaltando a memo?ria dos mortos para a
consolidac?a?o de caminhos para o entendimento da
natureza.
Em capi?tulo seguinte, Canetti apresenta aspectos da
vida privada do autor de “Guerra e paz”, o consagrado
escritor russo Leon Tolsto?i (1828-1910). Ressaltando
que Tolsto?i jamais despreza um pensamento, uma
experie?ncia ou uma observac?a?o, Canetti relata ser ele
proprieta?rio de terras que, contra a vontade da fami?lia,
divide-as para evitar conflitos e desejos que
eventualmente pudessem causar.
Segue-se uma descric?a?o dos dia?rios do me?dico
japone?s Michihiko Hachiya (1903-1980), sobrevivente
do bombardeio ato?mico de Hiroshima em agosto de
1945, publicados como “Dia?rio de Hiroshima”, em
1955. Canetti escreve que na?o ha? nesse dia?rio
qualquer trac?o falso ou de vaidade e sim uma busca de
explicar aquilo que, naquele momento, era
inexplica?vel. Em meio aos mortos e feridos, Michihiko
procura coletar pec?a por pec?a do ocorrido,
transformando hipo?teses em teorias a serem
comprovadas.
Vou parar minha viagem por aqui. Pensando se no?s,
profissionais das a?reas tecnolo?gicas, estamos
preocupados com a qualidade das palavras e dos
pensamentos provenientes dos programas de IA e dos
grupos hegemo?nicos que a manipulam. Ale?m disso, se
o ar respira?vel vai continuar a ser atacado e se a
indu?stria da guerra continuara? desprezando a vida,
indiscriminadamente.
Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/jose-roberto-castilhopiqueira/ia-e-meio-ambiente-em-elias-c anetti/. Acesso em: 03 out.
de 2025.