Vamos precisar de um navio maior
Há razões econômicas e ambientais para adotar
navios maiores nas exportações agrícolas.
Carlos Frederico Alves e Tiago Buss
No filme Tubarão, de Steven Spielberg, uma das
cenas mais célebres é aquela em que o biólogo vivido
por Richard Dreyfuss, apavorado diante do tamanho
do predador que terá de arpoar, se volta para o capitão
e diz, em pânico: “Vamos precisar de um barco maior”.
Pois a logística da exportação agrícola brasileira está,
agora, diante de uma situação semelhante: precisa de
navios maiores, bem maiores, com aproximadamente
o dobro do tamanho dos maiores atualmente utilizados
para despachar nossa exportação agrícola.
As razões para essa necessidade são econômicas e
ambientais. As econômicas têm passado
despercebidas aos olhos de muita gente, uma vez que
a agricultura nacional é campeã na produção e
exportação de grãos de soja, e faz na Ásia 70% de
suas vendas, mesmo sendo um dos produtores mais
distantes daquela região. Alcança esse feito graças à
capacidade que tem “da porteira para dentro”, com
tecnologia e conhecimento. “Da porteira para fora”,
porém, as dificuldades logísticas cobram um preço,
que come por dentro as margens de toda a cadeia
produtiva, desde os agricultores até os traders. As
dificuldades com a infraestrutura rodoviária, como as
perdas de grãos nas estradas esburacadas, são
conhecidas de todos. Mas o problema portuário e
marítimo ainda não.
Os maiores navios graneleiros usados hoje no Brasil
são da classe Panamax, com capacidade máxima de
80 mil toneladas. Porém, por limitações de
infraestrutura, contam-se nos dedos de uma mão os
terminais com capacidade para recebê-los com carga
máxima. Isso faz com que em boa parte dos portos os
Panamax tenham de operar abaixo de seu limite – ou
se recorre a navios menores. Aí é que aparece o preço
da ineficiência. O custo do frete marítimo é uma função
da distância (que aumenta o custo por tonelada)
versus o tamanho do navio (que reduz o custo por
tonelada), influenciada pela eficiência energética das
embarcações. Quanto mais longe o destino – a China,
por exemplo –, maior deveria ser o navio usado, para
otimizar o custo do frete.
Esse raciocínio já foi seguido pelas indústrias do
minério e do petróleo. Nestes dois setores, os
terminais privados inaugurados nos últimos anos
recebem navios muito maiores, com capacidade para
até 400 mil toneladas. Essa mudança de paradigma foi
decisiva para garantir a competitividade dessas
commodities nos mercados mundiais. Já no caso das
exportações agrícolas, pouca gente atenta para essa
questão.
[...]
O argumento econômico, em si, é robusto o
suficiente para chamar a atenção para os grandes
navios. Mas um segundo argumento, o ambiental,
ganhou força inédita com a recente publicação do
relatório do Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). O
transporte marítimo está entre os grandes emissores
de gases de efeito estufa – o saldo do setor equivale
às emissões de um país como a Alemanha. A
International Maritime Organization (IMO) cobra que as
frotas reduzam até 2030 o total de gases emitido
(incluindo SO2) em 70%. Diversas iniciativas têm sido
testadas para isso, incluindo a substituição dos
combustíveis atuais. Mas uma das soluções mais
acessíveis e eficazes para reduzir as emissões é
simplesmente usar navios maiores.
[...] Foi demonstrado que, ao longo de toda a cadeia
logística da soja que vai do Brasil até o país asiático, o
item individual que teria maior impacto na redução de
emissões seria a adoção de grandes navios padrão
Capesize. Ela faria a emissão no trecho marítimo cair
de 96,8 kg de CO2 por tonelada de soja para 55,28 kg
de CO2 por tonelada. Uma queda de 46%! Transporte
ferroviário e aquaviário também poderiam minorar as
emissões no trecho terrestre, mas nada teria impacto
comparável a essa simples mudança.
Por fim, quem apoia os dois argumentos com força é
o consumidor final da maior parte das exportações
brasileiras, a China, que estabeleceu a meta de se
tornar carbono zero em 2060, e para isso já começa a
cobrar os fornecedores ao longo de suas cadeias
produtivas. [...]
Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/espacoaberto/vamos-precisar-de-um-navio-maior/. Acesso em: 06 ago.
2025.