Em algum lugar perto do deserto
Pintando as figurinhas de barro que trouxe da Provença
para o meu presépio, o Rei mouro me traz outras lembranças.
E no atelier branco acima do mar sou outra vez menina em
Roma, morando com minha avó e meu tio, naqueles anos de
imediato pós-guerra.
O cinema começava a renascer e meu tio, cenógrafo e
figurinista, havia sido chamado para fazer um filme de época,
cujo título não recordo, que se passava em algum país árabe,
perto do deserto. Esqueci os detalhes porque não me
interessavam, meu interesse tendo sido sequestrado pela
surpreendente decisão familiar de empreitar os figurinos. Nada
semelhante havia acontecido antes naquela casa, nem voltaria
a acontecer. Mas os tempos justificavam o inesperado.
Em questão de semanas, o grande apartamento antigo se
viu invadido por costureiras e peças de tecido. A cômoda do
século XVII desaparecia debaixo do brocado, as poltronas
bordadas em petit-point serviam de cabide para túnicas e
mantos, no sofá capitonê se alinhavam turbantes. E os panos
cheios de dourado, as gazes, os linhos, os véus coloridos
esvoaçavam por toda a parte.
Nesse festival de tessituras coube-me ser modelo para os
figurinos das crianças. De pé sobre a mesa vestia uma roupa
depois da outra, de menina ou de menino, de diversos
tamanhos. E obedecendo às ordens das costureiras levantava
um braço, suspendia o cabelo, girava lentamente para o
controle das bainhas, rezando em silêncio para esconjurar
alfinetadas. Aquilo que parecia obediência era pura felicidade.
Assim mesmo, merecia prêmio. E o prêmio, fui informada
um dia, era ir com meu tio à Cinecittá, ver filmar a cena do
mercado.
Manhã de outono, um enorme galpão plantado no parque
dos estúdios. Abre-se uma porta, entramos, maquinárias,
cabos, ossaturas de madeira, reverso do cenário. Mas bastam
alguns passos para que o galpão desapareça aos meus olhos
levando reverso, máquinas e outono. E eis que estamos em
uma ruela, entrando na grande praça onde as fachadas
brancas se desdobram em arcadas, abrigando lojas uma ao
lado da outra, numa festa de toldos coloridos, de cestos, frutas,
ânforas e tapetes. Entro e saio das lojas. A farmácia é cheia de
frascos, vidros, caixinhas, um almofariz, balanças, e pouco
importa que tudo seja falso, se é tão verdadeiro para mim. Na
loja de animais, as araras gritam, os macacos me olham
desconfiados, o grande gato persa espia por entre as grades
da gaiola e tudo é verdadeiro embora não à venda.
Os extras esperam entediados, árabes conversando em
dialeto romano, comendo sanduíches, fumando. Alguns
cochilam encostados às paredes. A praça está parada. Até o
bater da claquete.
Luz!, grita uma voz no megafone. E um súbito sol calcina
as fachadas. Som! Grilos e cigarras abrem seu canto, meu
olhar se volta para as palmeiras que agora farfalham habitadas
por pássaros. Ação! A festa se põe em movimento. Todos
apregoam, falam, gesticulam, a multidão ondeja, escorre, há
um engolidor de fogo, um jogral com malabares, mulheres
passam com cântaros na cabeça, um homem traz dois galgos
na coleira, um cameleiro atravessa a cena com seus camelos.
E as crianças correm, se metem no meio das pessoas, mexem
nas mercadorias, gritam, brincam, vestidas todas com as
roupas que provei.
Naquela manhã estive em algum lugar perto do deserto.
Talvez fosse próximo daquele em que nasceu o menino cuja
manjedoura acabei de pintar. E lembrando o mercado da
praça, percebo agora que ao meu presépio falta um camelo.
Fonte: COLASANTI, Marina. Em algum lugar perto do deserto. In: Os últimos
lírios no estojo de seda. Belo Horizonte: Editora Leitura, 2006. (adaptado).