TEXTO I
A VERDADE SOBRE O NIÓBIO
Nossas reservas do minério valem mais que o pré-sal. Mas
isso não significa grande coisa. Entenda.
Parece mágica. Você joga um punhadinho de nióbio, apenas
100 gramas, no meio de uma tonelada de aço – e a liga se
torna muito mais forte e maleável. Carros, pontes, turbinas
de avião, aparelhos de ressonância magnética, mísseis,
marcapassos, usinas nucleares, sensores de sondas
espaciais… praticamente tudo o que é eletrônico, ou leva aço,
fica melhor com um pouco de nióbio. Os foguetes da empresa
americana SpaceX, os mais avançados do mundo, levam
nióbio. O LHC, maior acelerador de partículas do planeta, e o
D-Wave, primeiro computador quântico, também. Todo
mundo quer nióbio – e quase todas as reservas mundiais
desse metal, 98,2%, estão no Brasil. Nós temos o equivalente
a 842 milhões de toneladas de nióbio, que valem
inacreditáveis US$ 22 trilhões: o dobro do PIB da China, ou
duas vezes todo o petróleo do pré-sal. Por isso, há quem diga
que o nióbio pode ser a salvação do Brasil, a chave para o País
se desenvolver e virar uma potência global. Mas de que forma
o nióbio é explorado hoje em dia, e quem ganha com ele?
É verdade, como se ouve por aí, que estamos exportando
nossas reservas a preço de banana? E, se esse metal vale
tanto, por que há tão pouca informação sobre ele? Há muitas
lendas a respeito do nióbio. A mais importante: ele é, de fato,
um elemento estratégico e raro. Mas não se trata de uma
fonte inesgotável de riqueza.
A filha de Tântalo
O nióbio foi descoberto em 1801 pelo cientista britânico
Charles Hatchett, que o batizou de columbium, em referência
ao local de onde a amostra tinha vindo – Connecticut, nos
Estados Unidos, numa época em que os poetas ingleses se
referiam ao país como Columbia. Anos depois, o nióbio foi
confundido com o tantálio pelo químico inglês William Hyde:
ele afirmou que os dois elementos eram idênticos. Foi só em
1846 que outro químico, o alemão Heinrich Rose, comprovou
que eram coisas diferentes. Quando a confusão foi desfeita,
os americanos continuaram chamando o elemento de
columbium, mas os europeus adotaram o nome nióbio:
referência a Níobe, figura da mitologia grega, filha de Tântalo
(uma piadinha com o antigo debate nióbio versus tantálio).
No final do século 19, o nióbio começou a ser usado nos
filamentos de lâmpadas, até descobrirem que o tungstênio é
mais resistente. A partir dos anos 1930, começaram a surgir
pesquisas indicando que misturar nióbio com ferro era uma
boa ideia. Mas, para usá-lo em escala industrial, era preciso
encontrar uma boa quantidade desse metal. Na década de
1960, foi descoberta a primeira grande reserva do planeta:
em Araxá, a 360 km de Belo Horizonte. Em 1965, o almirante
americano Arthur W. Radford, integrante do conselho da
mineradora Molycorp, convidou o banqueiro brasileiro
Walther Moreira Salles para montar uma empresa de
extração e refino do nióbio. A Molycorp tinha acabado de comprar algumas minas em Araxá. O brasileiro topou, e
nasceu a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração
(CBMM).
Como em 1965 o metal ainda não tinha utilidade
comprovada, o governo militar deixou passar batido – e
permitiu que a CBMM, junto com os americanos, explorasse
o nióbio à vontade. Aos poucos, Salles foi comprando a parte
dos americanos, o que os militares viram com bons olhos. Na
década seguinte, a CBMM virou controladora mundial de um
mercado que nem sequer existia. Não existia, mas passou a
existir: nos anos 1970, a empresa descobriu dezenas de
utilidades para o nióbio – que hoje é um dos principais
negócios da família Moreira Salles (também dona do banco
Itaú).
A CBMM não vende o minério bruto, e sim uma liga chamada
ferronióbio, que contém 2/3 de nióbio e 1/3 de ferro. Além
desse produto, seu carro-chefe, ela também comercializa dez
outras formulações à base de nióbio. A empresa tem 1.800
funcionários e lucra R$ 1,7 bilhão por ano. Em 2011, vendeu
30% de suas ações para um grupo de empresas asiáticas, mas
com restrições: os brasileiros mantiveram o controle da
empresa, e não cederam nenhuma informação técnica sobre
o processamento do nióbio – um segredo industrial que tem
15 etapas e foi inventado pela empresa dos Moreira Salles.
“Ele envolve mineração, homogeneização, concentração,
remoção de enxofre, remoção de fósforo e chumbo,
metalurgia, britagem e embalagem”, explica Eduardo Ribeiro,
presidente da CBMM. “Para produzir o nióbio metálico, por
exemplo, é necessário realizar uma última etapa em um forno
de fusão por feixe de elétrons, que atinge temperaturas
superiores a 2.500 oC”, diz.
Além da CBMM, há outra empresa explorando nióbio no País:
a Anglo American Brazil, que opera em Catalão, Goiás.
Também há nióbio na Amazônia, mas ele ainda não começou
a ser minerado. Só o que temos em Minas Gerais e Goiás já é
suficiente para abastecer toda a demanda mundial pelos
próximos 200 anos. Os maiores compradores são China, EUA
e Japão, que pagam em média US$ 26 mil pela tonelada de
nióbio (esse valor é uma estimativa, pois o metal não é
vendido em bolsas de commodities; o preço é negociado caso
a caso, direto com cada comprador). Há quem diga que esse
valor é muito baixo – o ouro, por exemplo, é comercializado
a US$ 40 mil o quilo. Se o nióbio é tão útil, e o Brasil controla
quase todas as reservas, não poderia cobrar mais caro? O
governo brasileiro não deveria exigir royalties sobre a venda?
E por que apenas 10% das tubulações de aço do planeta usam
nosso produto? Há respostas para tudo isso.
Nada é perfeito
A primeira delas: o nióbio é substituível. Vanádio e titânio
cumprem basicamente a mesma função. O vanádio é
encontrado na África do Sul, na Rússia e na China. O titânio
está presente na África do Sul, na Índia, no Canadá, na Nova
Zelândia, na Austrália, na Ucrânia, no Japão e na China. Esses
países preferem explorar suas próprias reservas a depender
de um mineral que é praticamente exclusivo de uma nação só – o Brasil. Em alguns casos, também é possível trocar o nióbio
por tungstênio, tântalo ou molibdênio. “Não há mercado para
mais nióbio”, afirma o economista Rui Fernandes Pereira
Júnior, especialista em recursos minerais.
Outra questão é que é preciso pouco nióbio para que ele faça
sua mágica. “As reservas brasileiras são suficientes para
abastecer o mundo por séculos. Mas aquelas existentes em outras regiões do planeta, como o Canadá [que, como a
Austrália, também possui nióbio], também são”, diz Roberto
Galery, professor do departamento de Engenharia de Minas
da UFMG. Quer dizer: não adianta aumentar muito o preço
do nióbio, pois os compradores tenderão a optar por outros
metais, nem tentar acelerar demais a exportação (pois aí
haverá excesso de oferta de nióbio, fazendo o valor desse
metal despencar).
Há outra questão: o Brasil só exporta o nióbio em si. Não
fabrica produtos derivados dele. “Ninguém está disposto a
pagar uma fortuna pelo nióbio, porque nós não conseguimos
dar valor agregado a ele”, diz o professor Leandro Tessler, do
Instituto de Física da Unicamp. “Nós repetimos nosso velho
ciclo: vendemos matéria-prima e compramos produtos
prontos. Vendemos nióbio e compramos fios de tomógrafos,
por exemplo.” É um caso parecido com o do silício. Nós temos
as maiores reservas de areia do planeta (e é da areia que o
silício é extraído), mas só exportamos silício com 99,5% de
pureza, menos que os 99,99999% exigidos pela indústria
eletrônica.
E os royalties? O Brasil cobra pouco, mas cobra. O Estado fica
com 2% do valor das exportações de nióbio – bem menos do
que a Austrália, que exige 10%. Nós poderíamos impor
royalties mais altos (com o petróleo, por exemplo, eles ficam
entre 5% e 10%). Mas não há sinais de que isso vá ser feito. O
Marco Regulatório da Mineração, que está tramitando no
Congresso desde junho, não traz nenhuma regra específica
para o nióbio.
Depois de crescer 10% ao ano na década passada, o mercado
mundial de nióbio está estável. A demanda é de 100 mil
toneladas anuais, 90% fornecidas pelo Brasil. De todos os 55
minérios que o Brasil exporta, o nióbio é o único em que
somos líderes globais. Ele é o nosso terceiro metal mais
exportado em valor financeiro (atrás do minério de ferro e do
ouro, e empatado com o cobre na terceira posição).
“O surgimento de novas tecnologias pode levar ao aumento
do mercado de nióbio”, diz Marcelo Ribeiro Tunes, diretor do
Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). Afinal, o consumo
mundial cresceu cem vezes desde a década de 1960, e é
provável que a tecnologia continue a dar saltos (e encontrar
novos usos para o nióbio) no futuro. Mas, se quisermos
explorar todo o valor dessa riqueza natural, precisamos
aprender o que fazer com ela – e começar a fabricar produtos
mais sofisticados. “O Brasil deveria desenvolver a tecnologia
desse material na medicina, nos transportes, na engenharia”,
afirma Rui Fernandes Pereira Júnior. Do contrário, vamos
continuar à mercê dos compradores estrangeiros. Como
sempre estivemos desde que, no comecinho do século 16,
navegadores portugueses descobriram a primeira de nossas
commodities: uma madeira chamada pau-brasil.
(Texto de Tiago Cordeiro e Bruno Garattoniaccess. Extraído de
https://super.abril.com.br/ciencia/a-verdade-sobre-o-niobio/)