Um pouco de gentileza
Pessoas bem educadas pedem “por favor”. A ideia prática
por trás da polidez sempre foi esta: se você pede com bons
modos, tem mais chance de conseguir o que quer. Funcionava.
Em algum momento, que não consigo localizar no tempo
exato da minha vivência, mas calculo que tenha sido pela
metade dos anos 1960, o desrespeito, e logo a grosseria, e daí
a pouco a arrogância, e já, já a truculência, contrabandeados
para a vida civil e aprendidos em culturas de fora, instalaram-se
nos modos do morador civilizado das nossas cidades, aquele
que dava lugar no bonde às senhoras e aos mais velhos, dizia
“bom dia” aos que passavam, pedia licença, não economizava
o “por favor”, deixava entrar primeiro as damas, abria a porta
do carro para a namorada, e tantas gentilezas extintas ou em
extinção.
Noto, circulando pela cidade, que há sinais de amabilidade
por aí, uma cordialidade escrita. Pedidos e avisos delicados,
dirigidos aos cidadãos passantes. Pode ser uma retomada, por
que não?
Uma placa bem no centro do muro do estacionamento de
uma farmácia na Pompeia: “Este estabelecimento cuida da
sua saúde, portanto o aspecto de limpeza é muito importante.
Por favor, não piche. Contamos com a sua colaboração”.
O muro tem estado limpo de rabiscos nestes dois anos em
que venho andando por lá a caminho da hidroginástica.
Há quem junte humor e ironia ao pedido, sem perder a
delicadeza. Em uma aréola na Pompeia (Sabem o que é uma
aréola? Pois aprendi que o pequeno ajardinado que circula
o pé das árvores nas calçadas se chama aréola. Quem terá
posto nome tão delicado quanto apropriado ao jardinzinho?),
então, eu dizia, em uma aréola na Pompeia, encontro fincada
uma plaquinha com os dizeres: “Senhor Cão, favor não fazer
suas necessidades neste local”.
Bem perto dali, em um ajardinado que contorna um poste,
fincaram um repique* com nova dose de humor: “Senhor Cão,
favor não deixar seu dono fazer xixi aqui”.
Quem mora perto de boteco, sabe que não é fácil a convivência. Reclamações resultam inúteis. Quando a iniciativa de
serenar os alegrados fregueses parte dos donos, e num tom
amável, o resultado é melhor. Está dando certo em um boteco
de Belo Horizonte, onde se lê: “Pedimos a colaboração dos
frequentadores quanto às palmas, à cantoria etc. para não
termos problemas com a vizinhança”.
Em um posto de gasolina no Pari: “Senhor ladrão, favor
passar outra hora. Seu colega já levou tudo”. Será que adianta?
Até quem tem mais de 100 anos e boa memória se lembra
do aviso nas casas do pequeno comércio de bairro: “Fiado, só
amanhã”. Achávamos graça nessa habilidade com as palavras.
Até nas estradas, lugar de bravatas e desafios, encontro
pacíficos. Em um automóvel em Itaboraí, no Rio de Janeiro:
“Calma... Eu sou 1000 e ando a gás...”.
(http://vejasp.abril.com.br/materia/ivan-angelo-um-pouco-degentileza-cronica. Publicado em 12.02.2016. Adaptado)
*repique: advertência, aviso