Texto para a questão.
“Em Nova Orleans e cercanias, ninguém poderia se
queixar de que o sistema de alarme precoce não funcionou ou
da carência de verbas para a pesquisa científica. Todos
sabiam que o Katrina estava se aproximando, e todos tiveram
tempo bastante para buscar abrigo. Nem todos, porém,
puderam agir de acordo com a informação e fazer bom uso
do tempo de que dispunham para fugir.
Entre as vítimas da catástrofe natural, quem mais sofreu
foram as pessoas que, bem antes do Katrina, já eram os
dejetos da ordem e o lixo da modernização; vítimas da
manutenção da ordem e do progresso econômico, dois
empreendimentos eminentemente humanos. Muito antes de
se encontrarem no finalzinho da lista de preocupações
prioritárias das autoridades responsáveis pela segurança dos
cidadãos, tinham sido exiladas para as margens das
preocupações (e da agenda política) de autoridades que
declaravam que a busca da felicidade era um direito humano
universal, e que a sobrevivência do mais apto era a principal
maneira de implementá-lo.
O governo federal ‘tinha cortado em 50% as verbas
orçamentárias destinadas à manutenção das defesas contra
inundações, de modo que pela primeira vez em 37 anos a
cidade de Louisiana foi incapaz de oferecer a proteção que
sabia ser necessária no caso de uma catástrofe’.
De repente, os desastres naturais parecem comportar-se
de uma forma que antes se julgava exclusiva das calamidades
morais, produzidas pelo homem. Eles são altamente seletivos:
‘meticulosos’, diríamos, não fosse o receio de sermos
acusados de incorrer numa falácia antropomórfica. Mas
poderíamos dizê-lo e rejeitar a acusação, pois é igualmente
gritante que a aparente seletividade dos desastres ‘naturais’
deriva de uma ação humana moralmente pregnante, ainda
que não moralmente motivada.
A proteção da humanidade contra os caprichos cegos
da natureza foi parte integrante da promessa moderna. A
moderna implementação desse projeto, contudo, não tornou a
natureza menos cega e caprichosa, concentrando-se, em vez
disso, a distribuição seletiva da imunidade a seus efeitos. A luta moderna para desabilitar as calamidades naturais
segue o padrão dos processos da construção da ordem e do
progresso econômico: seja por ação ou omissão, divide a
humanidade entre as categorias dignas de atenção e as
unwertes Leben – as vidas indignas de serem vividas. Em
consequência, também é especializada na distribuição
desigual dos medos – qualquer que seja a causa específica
do medo em questão”.
Zygmunt Bauman. Medo líquido, p. 103-107 (adaptado)
No texto, “dejetos da ordem” e “lixo da modernização” são
expressões usadas para se referir às vítimas mais expressivas
do Katrina que são, também, vítimas